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CERVEJA PRODUZIDA POR MONGES ACELERA ECONOMIA DE PEQUENA CIDADE DA BÉLGICA

The New York Times
Cerveja Westv­leter­en 12, feita por monges
em Vlete­ren, na Bélgica, é considerada a melhor do mundo

Bebidas foram exportadas uma vez aos EUA; embalagem com seis unidades custa US$ 27

 
À primeira vista, esta singular cidade belga tem poucas atrações –uma charmosa igreja paroquial de tijolos e um alto moinho de vento de madeira no principal cruzamento da cidade. Porém, ela tem a melhor cerveja do mundo.
Nos últimos anos, vários sites que pedem a tomadores de cerveja para avaliar as bebidas favoritas concederam tal honra a um forte fermentado escuro conhecido como Westvleteren 12. Na verdade, o entusiasmado site norte-americano RateBeer.com deu o bicampeonato à cerveja, destronando a Narke Kaggen Stormaktsporter, cerveja escura sueca.
Mesmo assim, os moradores de Vleteren, com população de 3.700 habitantes, têm sentimentos ambíguos. A cerveja é produzida há um século e meio pelos monges trapistas da abadia local, São Sisto, aninhada em terras cultiváveis no limite da cidade. Claramente, a fama recente deu uma melhorada na economia local, beneficiando restaurantes, pensões e lojas locais que atendem peregrinos e turistas atraídos à abadia pela cerveja saborosa e de tom escuro.
"É muito bom para nós", afirmou Stephan Mourisse, 46 anos, tabelião que é o prefeito da cidade em meio expediente. "Não precisamos anunciar, nossas pensões vivem cheias, por causa da cerveja."

Segundo ele, doze anos atrás, se você quisesse uma Westvleteren 12, bastava ir a São Sisto e comprar uma. Hoje, explica o prefeito, num dia de tempo bom a fila de carros à espera para comprar a bebida pode se estender por cinco quilômetros.
 
Crise europeia
 
O tônico para a economia local não poderia ter vindo em melhor hora, com a Bélgica sentindo a recessão que aflige a Europa inteira. Em Liége, porção leste do país, uma importante fundição de aço anunciou em janeiro a dispensa de 1.300 pessoas. Um mês antes, a Ford divulgou o fechamento de uma fábrica de automóveis na vizinha Genk, afetando aproximadamente dez mil empregos.
Já a cerveja, por ora, mantém a pequena Vleteren a salvo.
Nos últimos anos, nasceu uma segunda microcervejaria, talvez inspirada nos monges. Em 2005, várias pessoas que administravam uma fazenda de avestruzes começaram a produzir uma cerveja escura do tipo forte, com 12%de teor alcoólico, similar à fabricada pelos monges.
Agora, a demanda por suas vigorosas "ales" e "stouts" escuras, cuja marca é De Struise (avestruz em holandês) – é tão grande que a empresa está se expandindo para um prédio escolar abandonado.
Urbain Coutteau, 51 anos, mestre cervejeiro da nova cervejaria, conduz o visitante por um depósito de barris de carvalho usados; alguns, vindos do Estado norte-americano do Kentucky e que antes armazenavam Bourbon, e outros, vindos de regiões vinícolas francesas, agora são empregados para envelhecer cerveja.
De acordo com ele, os monges de São Sisto não são concorrentes. "Eu os vejo como colegas santificados, é essa mesma a palavra. Se desejo visitá-los, simplesmente vou lá. Nós temos um bom relacionamento, nos respeitamos."
Segundo Coutteau, a cerveja está estimulando a vida econômica de todo mundo. "Muitos peregrinos vêm aqui. Eles precisam comer, dormir, as pessoas não voltam no mesmo dia." Eles visitam outras cervejarias, como a vizinha Saint Bernardus ou os túmulos de guerra tão frequentes nesta região, os campos de Flandres, onde foram travadas grandes batalhas da I Guerra Mundial.
Contudo, se a De Struise está crescendo, o que aumenta a atratividade da Westvleteren 12 dos monges é a recusa em aumentar a produção além dos aproximadamente 500 mil litros mantidos há mais de 60 anos ou abastecer lojas e bares da região. Esqueça a exportação.
Somente uma vez, ano passado, eles venderam para o exterior, despachando a cerveja para os Estados Unidos, uma embalagem de seis unidades custava US$ 85. Porém, isso foi apenas para financiar a reconstrução dos prédios da abadia, concluída no ano passado, a qual estava em péssimo estado de conservação.
A popularidade da Westvleteren criou empregos, ainda que em número modesto. Seis leigos trabalham na abadia, incluindo cinco na cervejaria e mais cerca de uma dúzia num restaurante e na loja de presentes nas proximidades dos portões da abadia. Já os monges, todos os 21, insistem que em primeiro lugar são homens de Deus, não vendedores de cerveja.
"Muitas pessoas pegaram carona" no sucesso da Westvleteren, disse Mark Bode, leigo que trabalhou para os monges por dez anos e agora atua como uma espécie de porta-voz. "É a cerveja que dá ao vilarejo sua visibilidade."
The New York Times
Bar em Vleteren, na Bélgica, onde os apreciadores da melhor cerveja do mundo tomam a bebida

"Porém, esse não é o objetivo principal", ele acrescentou, bebericando chá no restaurante, enquanto os visitantes transportavam as embalagens de meia dúzia – máximo de duas por freguês – a US$ 27 cada, agarrando-as como se fossem lingotes de ouro.
"Os monges são ambíguos. Eles se orgulham do produto, mas não querem estar associados unicamente com a cerveja. No presente momento, eles adotaram essa linha."
"Uma das maiores coisas que eles dão à região é o silêncio", Bode declarou, aludindo à prática trapista de preferir não falar sempre que possível.
Cervejas como Westvleteren e De Struise ajudam a transformar a Bélgica numa potência cervejeira. A Anheuser-Busch InBev, maior cervejaria do mundo, tem a matriz em Louvain, a leste da capital, Bruxelas. Embora muitas das 200 marcas da empresa, como Bud Light ou Beck, sejam qualificadas como valiosas, poucas entram nos rankings das melhores nos sites populares. Mesmo assim, não existe inveja.
"A ampla variedade, estilo e o número de cervejas belgas coloca a Bélgica no mapa como um país de referência para cervejas de qualidade", Natacha Schepkens, porta-voz da empresa, escreveu em e-mail. "Existe espaço para todos os protagonistas."
Tirando os benefícios econômicos, as pessoas de Vleteren simplesmente desfrutam sua cerveja. "Durante o dia, eu bebo Fanta", disse Hanne Versaevel, 32 anos, policial e mãe de duas crianças. "À noite, eu tomo uma Westvleteren porque ela é forte."
"Nós temos muito orgulho dela", ela concluiu.
Contudo, Marianne Soutaer-Boutten, que toca o Cafe De Sterre nas proximidades do centro da cidade, não concorda com o júbilo geral, lamentando o fato de que os restaurantes e bares locais não consigam comprar cerveja dos monges. Na vizinha Bruges, é possível encontrar uma garrafa de Westvleteren por quase US$ 35. Provavelmente, a cerveja está sendo revendida, um problema enfrentado pelos monges.
Entretanto, não dá para comprá-la em Vleteren, tirando o mosteiro.
Ela denuncia o bochicho que cerca a Westvleteren ao argumentar que a "ale" Saint Bernardus vendida em seu café é tão deliciosa quanto.
"Dá para comprar uma camiseta com a marca Lacoste ou uma camiseta no supermercado, mas, no fim das contas, é a mesma camiseta."

The New York Times |

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